4 de abr de 2012

Fator de queda

- Algumas verdades básicas, matemática simples e senso comum

    Legal, você está escalando sua corda e seu baudrier são seguros, a ancoragem é à prova de bomba e você se sente seguro. A idéia de uma queda não te preocupa. Tudo está perfeito.
    Talvez. Mas toda queda cria uma enorme quantidade de energia. Nós somos criaturas relativamente grandes e a gravidade é uma força formidável - qualquer pessoa que já tenha segurado uma queda pode confirmar.
    E mais. A força de impacto de uma queda é transmitida através de todo seu sistema de segurança e é aproximadamente dobrada no ponto de ancoragem. Assim, todos os elementos envolvidos no sistema devem sustentar o impacto sem falhar se a sua queda for lhe causar nada mais que arranhões e hematomas.

- O fator de queda

    Muitos escaladores não entendem realmente o conceito de fator de queda, apesar de ser bastante simples.
    O fator de queda é simplesmente a distância da queda dividida pelo comprimento da corda do desde o ponto fixo até o escalador que cai.
    Fator de Queda = Q
    Q = Altura da queda livre / comprimento da corda utilizada



O fator de queda 2 é o máximo que você deveria encontrar numa típica queda, haja visto que o comprimento de uma queda não pode exceder 2 vezes o comprimento de corda utiliizado. Normalmente um fator de queda 2 pode ocorrer apenas quando o líder da cordada não se utiliza de pontos de proteção e, ao cair, passa do ponto onde está recebendo segurança. A partir do momento que uma proteção é feita, a distância da queda, em função do comprimento da corda, é reduzida e o fator de queda cai abaixo de 2.

- Sua vida depende da elasticidade da corda
    O fator de queda é um dos elementos que governam a força de impacto. Os outros dois são a natureza da corda e o peso do objeto que cai. No caso, você.
    Obviamente, a única parte desta equação que pode reduzir a força de impacto de qualquer queda é a elasticidade das cordas dinâmicas. Desta forma os sistemas de segurança para escaladas são desenhados ao redor da qualidade de absorção de impacto das cordas dinâmicas. Isso amortece a queda, reduzindo a força de impacto e a chance de falha do sistema. As corda dinâmica é desenhada para limitar a força do peso de um escalador (80kg) no pior caso de queda (fator de queda 2) para não mais que 12kN (1200kg). Assim, o resto do equipamento pode ser desenhado para trabalhar com essa força máxima conhecida.
    Obviamente, quanto mais corda utilizada, mais elasticidade para absorver a queda. Isto explica porque uma queda de 4 metros em fator 2 desenvolve aproximadamente a mesma força de impacto - 9kN (900kg) - que em uma queda de 20 metros, presumindo que uma corda dinâmica obedeça os padrões da U.I.A.A. . Assim, o aumento da queda (e da força de impacto desenvolvida com ela) é compensado pelo comprimento de corda disponível que a amortecerá.

- Você não tira elasticidade de uma corda estática
    Cordas estáticas - Tradicionalmente mais usadas em espeleologia e resgates e agora também em rapéis esportivos e mesmo em academias de escalada, são desenhadas minimizar a elasticidade (espeleologistas odeiam se sentir como iô-iôs). Então, sua capacidade de absorver impacto é insignificante, particularmente ao longo de pequenos comprimentos de corda.
    E mais. As cordas estáticas não são bem definidas pelos códigos da indústria, como as cordas dinâmicas são. Assim, elas variam em elasticidade de acordo com o fabricante e o país de origem. Elas são, geralmente, tão estáticas quanto um cabo e transmitem virtualmente toda a força de impacto ao sistema de segurança e ao corpo do escalador. E, em uma escalada, uma queda extremamente pequena pode desenvolver força suficiente para ser crítica.

- Fitas e cordeletes são como cordas estáticas
    Usados para segurança, sem uma corda dinâmica, cordeletes são tão perigosos como cordas estáticas. Uma queda em fator 2 desenvolve força de impacto suficiente para haver risco de falha do cordelete, baudrier e mosquetões, sem mencionar os grandes danos ao esqueleto do escalador.
    Por exemplo, uma pequena queda de 1,2 metros num cordelete ou numa corda estática, desenvolve 18kN (1800kg), mais do que suficiente para quebrar o baudrier e/ou o escalador.
    Tendo em mente que o corpo humano só pode suportar, por um curto instante, a força de impacto de 12kN (1200kg) sem sérios riscos de dano, você não vai desejar absorver em torno de 18kN. E você deveria saber que 18kN está muito próximo ou acima do limites mínimos prescritos pela U.I.A.A. em todo o equipamento no seu sistema de segurança. Aqui eles estão para o propósito de comparação:
  • Ancoragem (pontos de proteção) - 25kN (2500kg)
  • Mosquetões - 20kN (2000kg)
  • Fitas - 22kN (2200kg) - 15kN (1500kg)
  • Baudrier
- Entretanto, até o mosquetão...
    A física não é nossa amiga em uma queda. A mesma vantagem mecânica que usamos em roldanas, trabalha contra nós quando estamos no final de uma corda. Porque no ponto onde a corda retorna, normalmente em um mosquetão, a força da queda é aumentada em aproximadamente 66% (seria dobrada se não fosse o atrito da corda com o metal).
    Então, começando com a nossa máxima força de impacto de 9kN (900kg) com uma corda dinâmica, a força no mosquetão torna-se 15kN (1500kg) em uma queda de fator 1,9. Isso é muito. É melhor que você deseje que se trate de uma boa ancoragem.
    Agora aplique a mesma matemática para uma corda estática. O fator de queda 1,9 com sua força de impacto normal de 18kN (1800kg), torna-se uma força de impacto de 30kN (3000kg - multiplica-se 18kN por 1,66). Neste caso você não ficaria para ‘contar estória’. E não importaria se a ancoragem agüentasse porque alguma outra coisa iria, sem dúvida, falhar.

- O cabo mortal ou a situação da ‘Via Ferrata
    A ‘Via Ferrata ’ está se tornando cada vez mais popular na Europa. É uma escada metálica com um cabo lateral. Isto encouraja turistas a escalar. Você se prende com uma fita ao cabo ou com o rabo de uma vaca (daria no mesmo).
    O problema disto ou qualquer cabo, vertical ou oblíquo, é que a queda pode desenvolver uma força de impacto bem acima do fator 2. Se escorregar você irá cair até a próxima ancoragem e, se você não estiver próximo a ela, a força será enorme. E acima do fator 2, nada é garantido. Nem os mosquetões, nem o baudrier, nem as fitas e nem mesmo uma corda dinâmica.
    A resposta para a ‘Via Ferrata ’ é: um dispositivo para absorção de impacto desenhado para forças acima de fator de queda 2. E a lição é: não confie em um mosquetão correndo por um cabo. Isso pode parecer seguro; mas não é.
    Bem, esta foi nossa pequena história de hoje. Como é dito em nossas camisas, "a lei da gravidade é cumprida rigorosamente" e, quando você toma o lado errado desta lei, a punição é negociada em força de impacto.

Escale seguro
PETZL

Obs.: A "Via Ferrata " é equivalente ao "Paredão Cepi " no Pão de Açúcar.


Traduzido e adaptado da revista Rock + Ice - nº 66 TEL 1-800-282-7673
por Luciano Bender da Silva


Para saber mais acesse: http://www.guiavertical.com/





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